A EXPOSIÇÃO

Uma capital é um retrato afetivo de um povo: sua identidade espacial e potência transformadora. Ao longo de 518 anos, três cidades brasileiras ocuparam o lugar de centro do poder administrativo da colônia, do império e, por fim, da república. Três períodos marcados por diferentes modos de ver nosso país e interpretar sua paisagem humana e natural. Tendo isso em vista, a exposição Capitais do Brasil convida a todas e todos para uma experiência sensorial e interativa através de três importantes lugares de história e resistência. Nela, os olhares do fotógrafo sueco Åke Borglund e do carioca-brasiliense Bento Viana transformam a visita ao museu em um passeio pela memória do Brasil. Um passeio que começa na beira do mar da Roma negra, alça voo entre o Pão de Açúcar e o morro Dois Irmãos, e finca os pés no barro, no concreto e na amplidão da capital do amanhã dos candangos.

Uma capital é, também, uma arena de conflitos onde narrativas disputam espaços. Quando discursos hegemônicos procuram silenciar palavras de desconforto, atitudes de contestação ou vozes dissonantes, a arte reage com mais dança, teatro, música, cinema, poesia, fotografia, slam, entre tantas outras manifestações. As artes nunca se deixarão silenciar. Penetram nas brechas e cantos das cidades, transportadas pela água, no ar, pela terra: plantam sementes de Marielles e Amarildos. As artes encontram, cada uma a seu modo, formas de desestabilizar os poderes político, econômico e simbólico. Elas não deixam esquecer e restauram dignidades suprimidas, independente de cor da pele, grupo social ou identidade de gênero.

Tomando as fotografias de Åke Borglun e Bento Viana como fios condutores, a exposição Capitais do Brasil cumpre esse papel da arte ao percorrer dois caminhos possíveis de nossa história. De um lado, a trilha dos sentidos traz poemas contemporâneos entrelaçados às imagens em preto e branco do fotógrafo sueco, feitas em 1957; do outro, as veredas da memória, o olhar colorido e hodierno de Viana se mistura a fatos históricos institucionalmente mantidos à sombra daquela “história oficial” feita apenas por homens brancos, ricos e poderosos. Não importa qual caminho siga o visitante, o fim de uma estrada é sempre o começo de outra. Salvador, Rio de Janeiro e Brasília apresentam-se, aqui, como cidades infinitas, sobre as quais o olhar do viajante pode construir infinitas histórias.

Brasília, para Clarice, é o espanto inexplicável. O Rio, para Machado, uma metamorfose de surpreender. Salvador, nas palavras de Castro Alves, é o verso mais sublime da poesia. Cada pessoa descobrirá uma capital diferente nesta exposição. São cidades feitas de água, ar e terra que devolvem ao visitante suas perguntas em forma de poesia, suor e humanidade. Lugares para se perder e encontrar novas perspectivas, novas formas de valorizar e preservar os espaços que nosso povo construiu a partir de suas diferenças.

SALVADOR

Conta a História que no ano de 1549 o governador do Estado do Brasil, Tomé de Souza, fundou a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos para servir de sede do recém-estabelecido governo geral. A aparente calma que cerca essa informação esconde a disputa de projetos diferentes: a cidade do além-mar somente vingaria com a dominação dos indígenas. A mata, que levava o nome de seu oceano, seria substituída pela cana de açúcar indiana, e os nativos, antes senhores de suas terras e trabalho, seriam escravizados ou dizimados. Símbolo maior da colonização portuguesa até 1763, quando perde o posto de capital para o Rio de Janeiro, a cidade de Salvador foi o proscênio estruturante do sistema que se arraiga com afinco até os nossos dias: a escravidão. Milhares de homens, mulheres e crianças negras foram usurpados das mais diversas tribos e reinos do Continente Africano pelo homem branco, cristão, europeu. A cidade programada para ser o marco de conquista dos trópicos torna-se a Roma Negra, símbolo máximo de nosso histórico de opressão, mas primordialmente, símbolo de uma resistência afirmativa. Suportando grilhões, colares de ferro e máscaras de flandres, esses seres humanos escravizados, negros e indígenas, moldaram a cidade com suas cores, ritmos e desejos de liberdade que persistem até os dias atuais, pois a luta por igualdade e reparação ainda não se encerrou.

RIO DE JANEIRO


Vista de cima, mal sabia a cidade do Rio de Janeiro que se converteria no símbolo tríplice da sina do Estado Brasileiro: seria capital da colônia, do império e da república. Oficializada capital no ano de 1763, o Rio se transformou na principal porta de entrada dos escravizados que eram direcionados para as lavras e, consequentemente, a porta de saída do ouro, que trouxe a riqueza para poucos a custo da pobreza de muitos, escravizados, libertos e livres. Os ventos napoleônicos levariam D. João VI e sua família em 1808 à capital, que foi considerada suja, feia e indigna de receber a corte europeia. Instituía-se a ideia do moderno em prédios e jardins neoclássicos entrelaçados ao arcaísmo colonial, já que a escravidão permaneceu intocada e a cor um fator de distinção social. O dirigível que sobrevoou o céu carioca em 1882 observava as formações rochosas, os negros que exigiam liberdade, os homens e mulheres pobres que subiam os morros e sambavam em barracos. É conservando as ruínas do Império que a modernidade entra na capital da República, tentando atingir os céus não apenas com os aviões, mas construindo uma nova Babel, aprovada pela imagem do Cristo que, do alto do Corcovado, redime aqueles que não possuem camelos, mas manejam as agulhas na costura de seus paetês.

BRASÍLIA

Próximo ao paralelo 15, distante da pedra fundamental posta por Epitácio Pessoa em 1922, Brasília foi erguida em um plano pilotado por Fabianos e Sinhás Vitórias acompanhados de suas Baleias. Na terra barrenta pousava o sonho democrático de integração do país, sonho de concreto sobre base de frágeis cristais. A nova capital federal, inaugurada em 1960, incompleta, imperfeita, transbordava de esperança “de que os homens que aqui vierem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra”. Os candangos, empurrados para as periferias que não foram cobertas por água, presenciaram todo o sonho democrático sendo preenchido por aqueles que pouco se reconheciam em seus calos e suores e dores. Brasília, a cidade cujo céu está sempre à vista, em que a ausência de muros simboliza o ideal de uma sociedade humanitária e inclusiva, lentamente transformou-se em uma ilha longe do Brasil. Tais como os primeiros indígenas, aqueles que lotam as periferias da cidade modelo assistem a imposição de um projeto que vem de cima para baixo, e aguardam, impacientes, o poder de transformação e justiça dos “brasileiros de amanhã”.

INFORMAÇÕES

A Secretaria de Cultura do Distrito Federal, o Museu Nacional do Conjunto Cultural da República e a produtora Quatro Cantos Escritório de Arte convidam você para a exposição Capitais do Brasil.




Visitação de 15 de novembro de 2018
a 6 de janeiro de 2019
Terça a domingo de 9h às 18h30

ENTRADA FRANCA

GALERIA TÉRREO
Museu Nacional da República, Brasília – DF
Setor Cultural Sul – Lote 2

Evento Acessível. Classificação Livre

CAPITAIS DO BRASIL ESCOLAR

Convidamos também as escolas da rede pública de ensino, os centros de ensino especial e as instituições de atendimento a pessoas portadores de deficiência e intelectual de todo o DF a curtir gratuitamente a exposição Capitais do Brasil com visita guiada e mediada!

Visitas escolares agendadas pelo telefone (61) 98350-1166


Este projeto é realizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura do Distrito Federal.
Patrocínio: Lei de Incentivo a Cultura, NET e Claro
Realização: Quatro Cantos. Apoio: Museu Nacional, Secretaria de Cultura e Governo de Brasília
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